Até que ponto a performance é saudável?

 

Até que ponto a performance é saudável? 

No Brasil, essa lógica é possível ou violência disfarçada de mérito?



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  Existe uma crença silenciosa que atravessa o mundo contemporâneo: a de que estar sempre funcionando é sinal de virtude. Acordar cedo, cumprir rotinas exaustivas, responder rápido, produzir constantemente. A performance deixou de ser exceção para virar regra. Mas até que ponto isso é saudável? E mais: em um país como o Brasil, essa lógica é possível ou apenas cruel?


  Ter rotina e trabalhar não é opcional. Para a maioria das pessoas, é o que garante dignidade, comida na mesa, teto e alguma estabilidade mínima. Não existe romantização aqui. A vida real exige esforço, constância e responsabilidade. O problema começa quando essa necessidade legítima se transforma em exigência ilimitada. Quando sobreviver passa a custar o corpo inteiro.


  No Brasil, a performance raramente está ligada à ambição ela nasce da urgência. Trabalha-se muito não só para “chegar lá”, mas para não cair. O cansaço não é escolha estética, é necessidade. Ainda assim, a exaustão é tratada como falha individual. Se alguém não aguenta o ritmo, o erro parece sempre pessoal, nunca estrutural.


  É nesse ponto que Franz Kafka se torna menos literatura e mais espelho. Em "A Metamorfose", Gregor Samsa acorda transformado, mas sua primeira preocupação não é o corpo que já não responde, é o trabalho. O medo não é deixar de ser humano, mas deixar de ser útil! Quando ele não performa, perde o lugar, o afeto e a voz. A família não o abandona por crueldade explícita, mas porque o sistema já havia ensinado que quem não rende não permanece.

 

  Décadas depois, a lógica permanece e é retratada a partir de outra obra, Jogos Vorazes. Corpos cansados, rotinas irreais e a culpa por descansar continuam existindo, mas agora atravessados por uma metáfora ainda mais explícita: a de que sobreviver não basta é preciso mostrar. A resistência deixa de ser vivida em silêncio e passa a ser performada, observada, consumida. Na arena, não vence quem apenas aguenta, mas quem convence. A força precisa ser visível, a dor, narrável. A exaustão, espetáculo.

 

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  Talvez essa seja a ponte mais incômoda entre ficção e realidade: quando a luta diária deixa de ser apenas vivida e passa a ser exibida. Quando resistir não é suficiente, é preciso parecer resiliente. No Brasil, onde tantos já vivem no limite, essa exigência se torna ainda mais violenta. Não há pausa possível quando o descanso ameaça a sobrevivência. 

 

  Questionar a lógica da performance não é negar o valor do trabalho. É perguntar por que trabalhar precisa custar tanto. Por que o corpo precisa adoecer para que a dignidade seja reconhecida. Por que falhar virou vergonha, e não sinal de limite.


  Talvez a pergunta mais honesta não seja como produzir mais, mas até onde isso é sustentável? Até onde o corpo aguenta ser ferramenta? Até onde a vida pode ser tratada como prova constante? Porque existir não deveria ser um teste de resistência. E sobreviver não deveria exigir performance.

by: Maduh H. Carvalho

20/01/2026 às 14:30

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